10 de dez. de 2012

Cansado

Apesar de saber que a sua própria vida
não passava de um mísero suspiro em
relação a vida de todas as pessoas que
já passaram por este planeta ele não
conseguia deixar de se lamentar por todas
as falhas que pareciam existir.

Refazendo os passos de seus vinte e tantos
anos vividos ele saberia - embora não o fizesse -
enumerar alguns pontos onde havia falhado e de
certa forma, esperava o fim do mundo.

Em cada página de qualquer livro de
auto-ajuda disfarçado de ficção que lia
ele se encontrava mais necessitado.
Em cada expressão de fé que via
ele ficava mais descrente.

Não se preocupava mais com céu ou inferno.
Embora parecesse exagero, acreditava que o
mais próximo de um inferno
para os mortais era a própria vida.
Em uma centena de anos sobrariam apenas alguns
vestígios do que viveu em alguma foto
em algum álbum de família herdado por algum descendente.

Se lhe pedissem para resumir sua vida em uma palavra
responderia 'cansaço'.
Cansado de correr...
Cansado de procurar um sentido pra qualquer coisa que fosse...
Mas apesar disso, resolveu continuar pra ver
'onde tudo vai dar' esperando a hora de um
merecido descanso.

Ele não necessita que alguém leia, discuta
ou até concorde com o que escreve...
Apenas um desabafo silencioso de algo que não
consegue expressar de qualquer outra forma.

9 de ago. de 2012

Rodoviária

Sentado junto à uma mesa num bar podre de rodoviária,
com a terceira xícara de café já na mesa,
esperando meu ônibus chegar, olhei para
aquele reflexo negro e turvo do qual poucos
se dão conta de que existe.

Que vida patética e sem graça eu levo.
Sou um mero coadjuvante em minha própria história.
Só precisei parar uns minutos pra comprovar.
Coisas bonitas acontecem ao redor, mas nunca
envolvem minha pessoa.

É bonito ver que quando o ônibus chega
esposa e filha estão à espera de um homem.
Um abraço apertado e um beijo no qual se vê
no mínimo muito carinho.

É comovente a despedida chorosa quando
a pessoa embarca num ônibus cujo
itinerário indica uma cidade pra fora do estado.

Em uma hora de espera vejo dezenas de
despedidas e de boas vindas.
E penso na possibilidade.
Uma rodoviária poderia ser um recomeço.
Basta comprar um bilhete e partir.
Seria uma espécie de ingresso para uma nova vida.
Nova vida onde poderia ser o personagem que eu quisesse.
Nova vida onde ninguém me conhecesse.


Porém, eu me conheço, e sei que sou incapaz
de arriscar perder o pouco que tenho.

19 de mai. de 2012

O coração sussurrante

Qual o motivo de dizer coisas
que não se sente?
E o motivo de sentir coisas
das quais nada se diz?
Quais os motivos para os
quais se mente?
Com tudo isso, como esperar
que a gente
tenha ao menos um sono feliz?

Quais as chances de um coração
sussurrante tenha mais voz
que os gritos de todo o mundo?
Se eu mudar, será que mudo o mundo?
Se eu não mudar, o coração fica mudo.

Não fará diferença,
já que ninguém ao menos lhe dá ouvidos...

25 de mar. de 2012

Mágoas de março.

Portas trancadas,
luzes apagadas,
fones nos ouvidos,
telefone desligado.

Relê os dois ultimos capítulos do
Apanhador no campo de centeio.
Ao contrário de Holden, que poderia chorar de felicidade
ao ver Phoebe girar no carrosel,
ele (seja 'ele' quem for) por pouco não chora por causa
da tristeza que naquele momento o nocauteou.

Lembra da vida patética que está levando.
Deixa o café que preparou esfriar...
Preparou o café, de qualquer forma,
somente para poder se mover um pouco.

Desânimado, sente uma necessidade de quebrar alguma coisa,
mas não quer chamar a atenção e nem fazer barulho.
Está ficando fora de controle.
Sente uma ânsia de vômito repentina.

Ouviu em algum lugar
que mudar de uma rotina por outra
não é uma solução que funciona a longo prazo.

Olha pro café novamente...e pensa:
"Seria melhor estar bebendo uma cerveja com Tyler
nos fundos de algum bar."

4 de mar. de 2012

De que se alimenta a tristeza?

Certamente lutar contra a tristeza não é pra qualquer um...
Ela se alimenta com as sobras de tudo que a gente tem pra oferecer.
O resto de otimismo que sobrou após um plano mal sucedido,
Se alimenta com as desavenças do dia-a-dia,
De um dia solitário num quarto escuro.
Do cansaço após um dia cheio de trabalho.

Ela vem como uma pedra a estilhaçar oportunidades
cultivadas por nós,
demolindo tudo e deixando apenas os cacos no
caminho para nos mostrar
o quanto somos patéticos.
E somos nós que obrigados, caminhamos
com os calçados em mãos sobre
estes mesmos cacos, que a cada machucado
nos lembram que fomos derrotados.

Dadas as circunstâncias, quanto mais se luta contra,
parece que mais terrenos oferecemos à tristeza.
Mas também não significa que deveríamos desistir de lutar e nos entregarmos.

Talvez em algum lugar do mundo alguém, algum dia
encontre a solução pra todo esse mal e resolva compartilhar com a gente.
Enquanto isso não acontece, torço pra que uma noite
bem dormida hoje, faça o dia de amanhã parecer
um pouco melhor.

17 de jan. de 2012

Entre a insônia e mais um café

Não sei dizer exatamente como tudo começou...
Mas era sólido...
Duro quanto diamante...
Sólido como uma rocha...
E frio como Gelo...

Era meu coração no princípio de tudo...

Mas não importa o quão duro seja,
nada tão duro que dure pra sempre...

Aprende a amar...
aquece o peito...
abaixa a guarda...
guarda o escudo...

Torna-se líquido por dentro...
suor da testa...
lágrimas dos olhos...
pensou que se tornaria o símbolo da vida ao se transformar em água...
límpido...cristalino...transparente...
mas torna-se verdadeiramente um desperdício
escorrendo pelo ralo...

...e acaba por esperar o último estado...
...ser vapor e sumir...

10 de jan. de 2012

Brinde a um suicídio não cometido

Quando se deu por si, percebeu que restavam em sua mão
fragmentos de vidro, vinho e sangue...
Não são preciso muitos detalhes pra você imaginar o que ocorreu...

Ele era de um tipo pacificamente violento,
desses que não brigam com ninguém.
Desses que quebram copos.
Desses que ninguém desconfia que
tem por vezes o desejo de matar todo mundo...
Mas que jamais matará...
mas o desejo ele persiste.

O que sobrou dos estilhaços está no chão.
Entre os estilhaços de ódio, há um resto de vidro que seria tão
Perfeito pro momento...
Perfeito pra desenhar uma linha no seu pulso...
Mas era tão covarde a ponto de não conseguir tirar sua vida...
Ou seria covarde e egoísta se terminasse tudo ali?

De qualquer forma, desistiu mais uma vez de desistir de tudo...
Enfaixou a mão de uma maneira tosca só pra estancar um pouco o sangue
e bebeu o resto do vinho da garrafa.
Brindou sozinho seu suicídio não cometido.