30 de dez. de 2010

Quem sou...

A cada dia me perco mais nas minhas ficções...
Entre lembranças sendo revividas na mente
e situações novas que crio
acabo por perder minha identidade....

É impossível ser sempre o Narrador.
Nesses dias eu me torno o personagem...
...e já fui tantos personagens.

De herói a mendigo em menos de um capítulo.
Já fui Winston quando perdi meu sorriso.
Já fui Jack.
Ou melhor.
Fui a decepção, falta de surpresa e o ódio de Jack.
Já fui o Astro Boy, com espaço pra voar logo na porta ao lado.
Já fui Jimmy, o santo filho de Edgar Allan Poe com uma puta.

Já fui assombração pra mim mesmo...
Já fui o Rei do nada.
Já fui Deus do meu próprio ninho de formigas.
Minhas formigas, e eu do lado segurando uma lupa frente ao sol,
queimando as infelizes....

E todos os dias, sou um pouco de cada um deles...

Conversando com amigos imaginários...
ocultando a realidade em frente aos meus olhos...
a de que sou infeliz...
tão quanto as minhas formigas....

26 de dez. de 2010

Sem rumo....

...ele já estava dirigindo naquela estrada há mais de 3 horas.
...e há 1 hora tinha visto a última casa.
...carros também eram raros os que avistava.
Realmente um deserto.

Ele tinha decidido há uma semana
que faria algo diferente.
Que mudaria de ares.
Vendeu tudo o que tinha.
Ficou apenas com seu carro.
Um corcel verde que havia comprado
fazia menos de um ano...

Naquela estrada há três horas,
mas já tinha partido há mais de uma semana.
E ainda não havia encontrado o lugar ideal
para recomeçar.

Sem destino, sem mapa,
apenas seguindo adiante...

O sol estava no meio do céu...
resolveu parar assim que avistasse algum bar.
Quase que imediatamente seu desejo havia se realizado.
Viu adiante no horizonte uma construção,
e ao chegar perto descobriu que era um bar...
assim como ele esperava.

Estacionou o velho corcel na frente.
Pegou a carteira e entrou.

Sentou numa mesinha bem ao fundo....
longe de outros clientes.
Todos bêbados....
Felicidade engarrafada...

Descobriu em poucos segundos que o tal bar
era na verdade um bordel...
meio abandonado, é verdade,
mas serviria ao seu propósito de beber uma
cerveja que fosse...

Não demorou muito,
uma garota foi lhe atender...
Realmente muito linda...
Com certeza a mais bela criatura num raio de 100 km,
isso dando um 'chute por baixo'....

Pediu sua cerveja
e enquanto bebia observava a jovem...
devia ter seus 16 ou 17 anos...
Ele nunca sido bom com essas coisas
supor de idade de alguém pela aparência....

"Pena que é uma filha da puta, literalmente"
ele pensou.
Olhou pra mulher a quem ela chamava de mãe.
Ela fumava um cigarro enquanto blasfemava
e xingava Deus e o mundo....

Imaginou a jovem daqui há 20 anos...
cópia identica da mãe...

Viu um Jukebox tocando alguma música de Zezé de Camargo e Luciano.
Ele não sabia qual era a música,
mas reconheceu a voz da dupla...
Pôs uma moeda e com uma paciência
que ele nem lembrava que tinha
começou a procurar alguma música que o agradasse...

Estava encarando pela primeira vez um monitor
desde que havia largado seu emprego há 5 meses...
De repente encontrou uma música que valia a pena...
Era Elvis Presley - Latest Flame (and Marie's the name)
Lembrou das Marias que teve,
todas com os mais diversos nomes....
Todas o tinham deixado....

Sentou novamente à mesa observando mais a jovem
Ele soube que estava apaixonado...
pensou na possibilidade de levá-la consigo
para que ela também pudesse ter uma vida nova...

Pensou, mas desistiu...
se lembrou de quem era...
lembrou que em seu carro haviam apenas
cinco lugares...

Além dele, levava consigo apenas
a solidão, o ódio, a frustração e o seu egoísmo...
...e era justamente o egoísmo que não queria dividir
o espaço do carro...
assim como não dividia sequer a sua solidão com um outro passageiro...

Definitivamente...não havia lugar no Corcel Verde
para uma nova paixão ou quem sabe o amor...

Ele pagou a conta e seguiu sua viagem....
com seus fiéis companheiros....

Se chegou a seu destino ninguém nunca soube...