21 de set. de 2013

Caro amigo

Caro amigo,
tal qual era meu propósito
hoje falarei com você como sempre
deveria ter falado.

Tenho lhe observado onipresente,
tenho reparado na sua tristeza a apatia.
Hoje de manhã percebi coisas que lhe
faltam para voltar e acreditar que o mundo
pode ser bonito.

Falta uma janela com uma vista para o
parque, para a avenida movimentada ou
para o nascer do sol.
Falta aquela música tocando ao acordar enquanto,
com tempo o suficiente, prepara seu café.

O que lhe falta é o porta retrato com a foto
tirada nas férias que vocês dois tiraram no ano anterior.
Falta a foto dela lá para te lembrar que vocês se fazem felizes
e fazem os dias valerem a pena.

Sei que por enquanto os dias parecem se arrastar, mas é esse o tempo
que você realmente precisa.
Você vai ver que tudo pode ficar melhor.

Digo isso não apenas como amigo.
Digo isso de uma forma que pareça com sua conciência falando.
Não. Melhor que isso, e você entenderá, estou falando agora
como o narrador que eu deveria ser.

E se eu narro isso, quero que você saiba que há
uma chance para ser o protagonista da sua vida.

13 de ago. de 2013

Nunca mais

Acordou com a cabeça atordoada depois
de uma noite moderadamente mal dormida.
Abriu a janela para verificar o tempo,
sem aquela típica irritação por simplesmente
ser segunda feira, e percebeu que naquele
dia não chegaria a ver o sol.
Dia cinzento de inverno,
e ele até que gostava daquilo,
pra dizer a verdade.
Sentia-se feliz, quem sabe.

Pequenos cristais de gelo sobre a grama,
os bueiros respirando e enquanto ele inspirava,
sentia se vivo.
Viu as crianças esperando o ônibus para o colégio
todas em silêncio incomum.
"Minha cabeça agradece", pensou ele.

Porém interrompido pelo bip da cafeteira,
ele percebeu que mesmo o sol não aparecendo,
seu coração estaria aquecido.
Mesmo as crianças silenciosas
não evitariam que seu coração ficasse inquieto.
Mas não tinha nada a ver com as
nuvens ou as crianças e sim pelo sonho.

Sonhou com ela, o que era previsível.
Agora inevitavelmente, mesmo sem antes
ter pensado nela daquela forma,
nunca mais a veria como antes.

11 de mar. de 2013

Nem sempre

Dia após dia
somos escravos da nossa
própria vida.
Acabo por pensar que ela não passe apenas de um
lento suicídio.
A cada dia morrendo um pouco mais...
A felicidade, alheia, inalcansável ...
As expectativas dos outros sobre nossas vidas
são as que nos afastam de nossos sonhos...
O tic tac que marca o ritmo da vida é o mesmo
que nos deixa insanos, querendo ver tudo explodir.

Qualquer coisa pode ser um bom motivo para querer morrer.
...e sempre há um motivo para querer morrer.

(mas para viver, nem sempre.)

Começa com o anseio e termina com 'nada'

Já faz alguns dias em que simplesmente
ando contando os dias a fim de que chegue logo
o ano novo.

Sim, é apenas março, eu sei, mas
não há nada pelo qual eu anseie mais
do que a chance de ver outro pequeno fim.

Por não ter visto os fogos na virada,
por não ter acompanhado a contagem regressiva,
talvez, eu me sinto um pouco preso no ano passado.

É, e sempre tem quem queira fazer tudo ficar pior.
Talvez não por maldade, mas pelo simples intuito de
querer se mostrar superior.

Uma discussão banal que, com um tanto de eloquência,
faz com que você renegue seus próprios pensamentos
e se dispa de seus ideais.

Pena daquele que só tem um rótulo ao qual se apoiar,
que o deixa de lado para se igualar ao carrasco que
joga palavras duras quebrando, assim, o sentido que o fazia se sentir bem.

E se a felicidade for só um rótulo?
Vale a pena se desfazer dele para se igualar aos outros?
E quando alguém te perguntar 'o que você é?' talvez te
resta dizer: 'nada'.

29 de jan. de 2013

De ex-equilíbrio estou farto.

Nunca tão doce e nunca tão amargo.
Esse costumava ser o equilíbrio que por muitos
é confundido com apatia.
E de tão confuso, se torna a própria.

E o mundo espreme teus desejos
fazendo com que eles escoem pelo ralo.
E o mundo se faz corda bamba,
para que simplesmente você caia.

Desequilíbrio e bipolaridade pra mim é tudo a mesma merda.
Em parte sou a pessoa mais equilibrada que conheço,
embora ao mesmo tempo, eu viva tropeçando
sobre minhas próprias dúvidas e convicções
das quais abro mão e deixo espalhados pelo caminho.

Você perde o jeito.
Sente vergonha de tentar de novo, e isso
é um erro mais grave do que cair.
E o equilíbrio nunca mais volta, pois você está
sempre inclinado a aceitar tudo.

E o bom equilibrista é aquele que vai firme de encontro
ao fim da jornada, sem medo do fracasso, sem olhar pra baixo
ou pra trás.
Há tempo se foi o equilíbrio.
Meu ex equilíbrio.

10 de dez. de 2012

Cansado

Apesar de saber que a sua própria vida
não passava de um mísero suspiro em
relação a vida de todas as pessoas que
já passaram por este planeta ele não
conseguia deixar de se lamentar por todas
as falhas que pareciam existir.

Refazendo os passos de seus vinte e tantos
anos vividos ele saberia - embora não o fizesse -
enumerar alguns pontos onde havia falhado e de
certa forma, esperava o fim do mundo.

Em cada página de qualquer livro de
auto-ajuda disfarçado de ficção que lia
ele se encontrava mais necessitado.
Em cada expressão de fé que via
ele ficava mais descrente.

Não se preocupava mais com céu ou inferno.
Embora parecesse exagero, acreditava que o
mais próximo de um inferno
para os mortais era a própria vida.
Em uma centena de anos sobrariam apenas alguns
vestígios do que viveu em alguma foto
em algum álbum de família herdado por algum descendente.

Se lhe pedissem para resumir sua vida em uma palavra
responderia 'cansaço'.
Cansado de correr...
Cansado de procurar um sentido pra qualquer coisa que fosse...
Mas apesar disso, resolveu continuar pra ver
'onde tudo vai dar' esperando a hora de um
merecido descanso.

Ele não necessita que alguém leia, discuta
ou até concorde com o que escreve...
Apenas um desabafo silencioso de algo que não
consegue expressar de qualquer outra forma.

9 de ago. de 2012

Rodoviária

Sentado junto à uma mesa num bar podre de rodoviária,
com a terceira xícara de café já na mesa,
esperando meu ônibus chegar, olhei para
aquele reflexo negro e turvo do qual poucos
se dão conta de que existe.

Que vida patética e sem graça eu levo.
Sou um mero coadjuvante em minha própria história.
Só precisei parar uns minutos pra comprovar.
Coisas bonitas acontecem ao redor, mas nunca
envolvem minha pessoa.

É bonito ver que quando o ônibus chega
esposa e filha estão à espera de um homem.
Um abraço apertado e um beijo no qual se vê
no mínimo muito carinho.

É comovente a despedida chorosa quando
a pessoa embarca num ônibus cujo
itinerário indica uma cidade pra fora do estado.

Em uma hora de espera vejo dezenas de
despedidas e de boas vindas.
E penso na possibilidade.
Uma rodoviária poderia ser um recomeço.
Basta comprar um bilhete e partir.
Seria uma espécie de ingresso para uma nova vida.
Nova vida onde poderia ser o personagem que eu quisesse.
Nova vida onde ninguém me conhecesse.


Porém, eu me conheço, e sei que sou incapaz
de arriscar perder o pouco que tenho.